"Circo em Casa" - José Martinho Gaspar estreia ciclo de entrevistas: "A cultura é o que dá sentido à nossa vida" - Circo Natureza

pub

06/04/2020

"Circo em Casa" - José Martinho Gaspar estreia ciclo de entrevistas: "A cultura é o que dá sentido à nossa vida"

Com o intuito de minimizar o impacto provocado pelo isolamento social resultante das medidas de contenção do novo coronavírus, covid-19, o Circo Natureza inicia esta segunda-feira, 6 de abril, um ciclo de entrevistas, intitulado "Circo em Casa", com personalidades da região do Médio Tejo que se destacam no meio cultural regional.

O primeiro convidado da iniciativa é José Martinho Gaspar (n. 1967), professor de História, natural de Água das Casas, no concelho de Abrantes. Enquanto escritor, tem publicadas várias obras, como ensaios, contos e livros infantis, com destaque para "Os Discursos e o Discurso de Salazar" (2001), "Histórias Desencantadas" (2012), "Água das Casas: Memórias de Uma Comunidade", "Um Mundo Quadrado" (2015) e "Histórias de Ter de Ser" (2017). Em fevereiro de 2020 apresentou o primeiro romance da sua autoria "Vidas por Fios", um dos temas abordados nesta breve entrevista, onde é abordada ainda da revista "Zahara", do Centro de Estudos de História Local de Abrantes, projeto que dirige e do qual muito se orgulha. O estado da cultura nesta fase de pandemia e a sua relação com a aldeia que o viu nascer são outros dos temas para ler na primeira entrevista de "Circo em Casa".

© André Lopes/Circo Natureza

Circo Natureza (CN) - Como se está a adaptar a este tempo de recolhimento, devido à pandemia da Covid-19? Há mais tempo para fazer investigação e para escrever?

José Martinho Gaspar (JMG) - Estou a tentar gerir as coisas da melhor forma possível, mas estou inadaptado, como estará a maioria das pessoas. Apesar de costumar trabalhar em casa, por vezes por períodos prolongados, é muito difícil lidar com este condicionamento, que nos impede de fazer a nossa vida habitual, tanto em termos profissionais como pessoais, impedindo-nos de nos encontrarmos com as pessoas de que gostamos, de assistirmos a espetáculos, de praticarmos exercício físico ou de organizarmos um jantar com amigos.

Apesar de tudo, para já, não tem havido muito tempo de sobra, tanto mais que enquanto professor tenho mantido o contacto com os alunos online e participado nas reuniões da escola em videoconferência. Ao nível da escrita de ficção, tenho produzido uma crónica diária desde o dia em que encerraram as escolas, a que chamei "a era do vazio", que publico em "O escrevedor", a minha página de Facebook, e escrevi um conto. Ainda assim, não sinto que as contingências deste tempo sejam facilitadoras da inspiração, pelo que vou tentar aproveitar o tempo para fazer avançar projetos que tenho em mãos de divulgação ao nível da História.

CN - Depois de livros de contos e de literatura para a infância lançou em fevereiro de 2020 “Vidas por Fios”, o seu primeiro romance. Como surgiu a ideia de enveredar por um género literário diferente daqueles que já tinha experimentado?

JMG - Alguns dos que leram os meus contos, lançaram-me, mais do que uma vez, o desafio de tentar um texto de uma dimensão diferente. A dada altura, eu próprio assumi esse projeto como um desafio pessoal. Iniciei-o há 4 ou 5 anos, todavia as múltiplas atividades em que me envolvo impediram que tenha sido um processo tão rápido como eu desejaria. Por um lado isto foi menos bom, uma vez que gosto de agarrar os projetos sem os deixar arrastar, por outro lado talvez não tenha sido assim tão mau, já que algum amadurecimento da minha escrita terá contribuído para uma versão final melhor do que se tivesse escrito a história num rasgo.

CN - “Vidas por Fios” pode ser considerada uma metáfora “sobre as debilidades da democracia representativa. O compadrio, nepotismo, corrupção, manipulação…”? A democracia está doente? 

JMG - A democracia representativa tem as suas debilidades e efetivamente a corrupção ou o compadrio e eventuais manobras de manipulação são fragilidades que lhe causam problemas sérios. Talvez não se possa dizer que o sistema democrático está doente, mas que é atacado por várias doenças, ainda assim dispõe de "medicamentos" para as combater, alguns pouco eficazes, daí que sinta que é necessário que se continue a trabalhar para os melhorar. Seja como for, como afirmava Churchill, a democracia continua a ser o pior sistema político, à exceção de todos os outros.
O tempo que vivemos, com esta pandemia pode levar a transformações significativas em termos de sistemas políticos vigentes. Para já, há uma aparente valorização da ação dos decisores políticos, com o intuito de resolverem problemas da vida das pessoas, secundarizando-se a gestão financeira. Este é um bom sinal. Todavia, contingências deste tempo excecional também podem abrir caminho a soluções autoritárias.


CN - Onde encontra a sua inspiração para o que escreve?

JMG - Quanto às ideias, muitas delas, vou buscá-las à minha experiência de vida, não apenas da minha vida, mas das vidas, dos tempos e dos espaços com que já contactei pessoalmente ou através dos livros e dos filmes, por exemplo. Sempre ouvi dizer que se queremos escrever alguma coisa a que não falte o pé, temos que ser muito conhecedores dessa realidade. Depois, há temáticas que são recorrentes naquilo que escrevo, nomeadamente o mundo rural em mudança, nos últimos 40 anos, a saída das pessoas do campo para a cidade e as transformações pessoais e sociais daí resultantes.
Mas não sei se deva falar de inspiração, que parece uma coisa facultada pelas Tágides, como aconteceria com Camões... na realidade existem momentos mais propícios do que outros para que nos ocorram ideias para escrevermos em termos de ficção e até para nos sentarmos e produzirmos com alguma qualidade. Mas, no essencial, é um trabalho de muita "transpiração", de escrever e reescrever, um ato de jogar com as palavras, tanto mais que importa o que se escreve, mas eu valorizo particularmente a forma como se escreve.

CN - Depois deste primeiro romance, o que virá a seguir?  

JMG - Como já referi, para este ano tenho trabalho da área da História com que me comprometi, logo torna-se prioritário, apesar de possivelmente, fruto deste tempo suspenso, algumas prioridades se virem a redefinir. Tenho em mente um romance, que necessita de maior disponibilidade para que o agarre com ambas as mãos. Entretanto, tenho meia dúzia de contos escritos que gostaria de publicar, conjuntamente com mais uns quantos que venha a escrever, o mesmo acontece com um livro, em coautoria, sobre os 50 anos do Liceu de Abrantes, que se encontra praticamente concluído.


CN - A cultura está a passar por uma fase de reinvenção e adaptação a uma nova realidade. Nesta altura de isolamento, como procura chegar à cultura? 

JMG - Sim, a cultura está, tanto quanto possível, a reinventar-se e ela merece que, neste tempo novo, se olhe para ela com olhos de ver, a par das problemáticas sociais e económicas. Estamos habituados a que a cultura seja um parente pobre nos orçamentos e que os criadores, porque têm poder inventivo, num passe de mágica, produzam sem recursos. É bom que os agentes, nomeadamente artistas, tenham capacidade de se reinventar neste tempo, nomeadamente em termos dos espetáculos que é possível produzir. Importa, porém, que quem de direito não se esqueça que quem põe a cultura cá fora vai ser o primeiro a precisar de apoio, na medida em que já tinha muitas vezes uma vida marcada pela precariedade. A cultura é o que dá sentido à nossa vida, se a deixarmos morrer, muitas coisas arriscar-se-ão a perder o rumo. Quanto ao meu consumo, nesta fase, passa muito pela leitura e pelo cinema acessível em plataformas a que é possível aceder a partir de casa.

CN - Que livros recomenda para este tempo de confinamento?

JMG - Podia recomendar tantos, mas porque creio que nos podem levar a uma atitude introspetiva, nomeadamente a reequacionar algum sentido que damos às nossas vidas, ou à falta dele, sugiro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, "O Deserto dos Tártaros", de Dino Buzzati, ou "Pão de Açúcar, do jovem Afonso Reis Cabral. Com mensagens de esperança, em conjunturas de dificuldade, proponho "Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato", de Ana Margarida de Carvalho", e "Índice Médio de Felicidade", de David Machado. Não posso, todavia, deixar de recomendar qualquer um dos 34 números da revista "Zahara", projeto inigualável a nível nacional, que me orgulho de coordenar, o qual permite conhecer múltiplas facetas da História, Etnografia, Antropologia, Património Material e Imaterial dos concelhos de Abrantes, Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha.

CN - Nasceu em Água das Casas, no concelho de Abrantes, e viveu durante muitos anos com os avós porque os seus pais estavam emigrados na Alemanha. Qual é, nos dias de hoje, a sua ligação à aldeia, às suas raízes, numa altura em que muitas pessoas regressam ao interior devido ao Covid-19? 

JMG - Vivi lá com os meus avós, algum tempo, mas maioritariamente com os meus pais, entretanto regressados, até aos 19 anos, e muito do que eu sou, que acaba por se refletir naquilo que escrevo, bebi-o em Água das Casas, uma aldeia com um forte sentido comunitário, como não conheço nenhuma outra na região. Depois de sair, fui regressando ao fim de semana, o meu pai continua a viver na aldeia, tenho lá as minhas raízes, logo é natural que continue a regressar. Em 2015 escrevi um livro sobre a aldeia, integro a associação local e continuo a envolver-me, tanto quanto posso, nas atividades que se desenvolvem, nomeadamente nas suas famosas festas de verão.

Este é um tempo difícil para uma aldeia como Água das Casas, onde vivem permanentemente cerca de 30 pessoas, quase todas idosas, mas ao fim de semana, antes desta pandemia, a população passava para próximo do dobro ou triplo, com as chegadas dos descendentes da terra que lá têm casa. Deste modo, o confinamento e as restrições de circulação são uma situação que acarreta especiais dificuldades para os idosos, que ficam mais isolados, e para os mais jovens, impedidos de regressar à aldeia.

Sem comentários: