"Circo em Casa" - António Colaço em entrevista: "Ser militar de Abril foi um privilégio" - Circo Natureza

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13/04/2020

"Circo em Casa" - António Colaço em entrevista: "Ser militar de Abril foi um privilégio"


Atualmente a viver em Mação mas com os olhos postos no mundo, António Colaço afirma que "somos de onde estamos". Nasceu em 15 de janeiro de 1952 em Gavião mas cedo se mudou com a família para Mação. A sua ligação à comunicação sempre foi muito ativa, confessando que "comunicar foi sempre um vício". Jorge Lacão convidou-o  para assessor de imprensa da bancada parlamentar do Partido Socialista, cargo que viria a ocupar durante 21 anos, até 2010, quando chegou a reforma. Ao longo de mais de 50 anos, conciliou a vida profissional com a produção artística, tendo exposto em julho de 2019 na Galeria do Centro Cultural Elvino Pereira, em Mação, “Cinquenta Anos a Fazer P.Arte”, mostra que assinalou meio século de trabalho artístico e que foi inaugurada em 4 de Abril, na Assembleia da República, em Lisboa.

Esta é a segunda entrevista de um ciclo intitulado "Circo em Casa", efetuado com o intuito de minimizar o impacto provocado pelo isolamento social resultante das medidas de contenção do novo coronavírus, covid-19.

Circo Natureza (CN) - Referiu numa entrevista em 2018 que “somos de onde estamos e devemos acrescentar algo mais aos sítios por onde passamos”. Nesta altura de confinamento social, devido à covid-19, o António Colaço é de onde?

António Colaço - Estou por Mação, mas com os olhos postos no mundo ainda meio atordoado a tentar perceber o PORQUÊ de tudo isto e o PARA ONDE e COMO vamos sair disto!

CN - Foi em Abrantes que começou a ter contacto com as rádios piratas. Como surgiu esta descoberta?

AC - Comunicar foi sempre um vício. Como colaborador do então semanário Notícias de Abrantes, e da Antena 1, fui fazer uma reportagem sobre quem eram e o que pretendiam aqueles rapazes (das rádios piratas)! Em breve me juntei a eles e Abrantes, durante três anos, foi a pátria de TODAS as rádios. Os três grandes encontros que aqui fizemos contaram no último já com a presença de deputados. A entrevista que então consegui do Presidente da Republica, Gen. (Ramalho) Eanes, após quatro horas de espera, foi decisiva!

CN - Como vê o atual estado da comunicação social regional?

AC - As redes sociais vieram alterar tudo. Mas creio que há lugar para projectos que saibam incorporar todos os benefícios que resultam da partilha de informação e dar-lhes um rumo editorial. O que está a passar-se com a Skiperizacão das nossas televisões é um verdadeiro case study que a seu tempo analisarei!

António Colaço no tempo das rádios piratas (© DR)

CN - Em 1989, a convite de Jorge Lacão, foi assessor de imprensa da bancada parlamentar do Partido Socialista. O que guarda desses tempos?

AC - Aquilo que parecia ser uma breve experiência, enquanto durasse o processo de legalização das novas rádios, e face a desentendimentos com o grupo de Emídio Rangel após anos de intensa colaboração, acabei por ficar vinte e um anos. Acho que tentei defender no meio dos jornalistas o que a política tinha de melhor e no meio dos políticos o que o jornalismo de melhor tinha. Se lhe disser que passados dez anos ainda continuam a convidar-me para o almoço anual entre jornalistas e assessores parlamentares, iniciativa que criei conjuntamente com os jornalistas de então...

CN - São mais de 50 anos dedicados às artes plásticas. É possível definir ao longo do tempo diferentes períodos artísticos nas suas obras? 

AC - Quando elaborei o texto do Catálogo (da exposição comemorativa dos 50 anos) dei por mim a pensar na reflexão que um dia fiz sobre as "fases" do Picasso, que então me fascinava, tipo, um dia quando for um pintor crescido também hei-de ter as minhas fases… Foi então que concluí que o título da exposição só podia ser “CINQUENTA ANOS A FAZER P. ARTE!!” Ou seja, concluí que as minhas fases estiveram intimamente ligadas ao acto de fazer. Daí a expressão a que recorri, "De que fases o que fazes, António"?!

Tudo isto para dizer que desde o figurativo ao surreal, passando pelas colagens, esculturas, até
à fixação naquilo a que chamo a "transfiguração da escrita", tudo em mim encontra eco para ser devolvido à comunidade como Arte. O pai da Paula Rego disse um dia que o artista era aquele que ia a mundos onde ninguém foi! Esse é o meu lema para os cinquenta, cinco anos ou cinco minutos que ai vêm.

Exposição “Cinquenta Anos a Fazer P.Arte” (© DR)

CN - Qual a obra de que mais se orgulha de ter criado? 

AC - Gosto de todas. Quando parto para a criação de uma obra não penso em mais nada, vou fazer um trabalho melhor que este ou aquele que já fiz.

CN - A Chaimite “Palavril”, "estacionada" em Mação, teve um sabor especial? De onde surgiu a ideia de estilizar uma Chaimite?  

AC - Fui militar de Abril. Um privilégio de que me sinto devedor. Tanto na realização, desde há quase dez anos dos Animados Almoços Ânimo, na Associação 25 de Abril, como nos diversos trabalhos que lhe tenho dedicado. Mas a Chaimite foi, de facto, um sonho antigo com mais de quatro anos e em que a arte se encarregou de transformar uma arma de guerra numa homenagem à coragem do punhado de homens que, entre outras coisas, nos devolveu a liberdade de expressão, de poder falar e ESCREVER o que quiséssemos! Pena foi que o meu camarada Ferro Rodrigues (atual presidente da Assembleia da República) não tivesse autorizado a colocação da Chaimite em frente da Assembleia...

Chaimite estacionada em Mação © DR

CN - A cultura está a passar por uma fase de reinvenção e adaptação a uma nova realidade. Nesta altura de isolamento, procura chegar à cultura através da internet? 

AC - Sim. Participei em diversas iniciativas, faço directos (no Facebook) quer a partir do meu novo Atelier, ainda em construção, quer em directo do órgão de tubos da Matriz de Mação.

CN - Que livros recomenda para este tempo de confinamento?

AC - Não sou um grande leitor. Tive um défice cultural de base. Não vi muito cinema porque queria ser realizador e não queria sentir-me influenciado. O mesmo se diga para os livros. Queria escrever mas não sentir-me influenciado. Estranho, não é?! Posso escandalizar mas sinto que o tempo que me resta é cada vez menor para ler e, sim, todo ele necessário para o muito que ainda quero FAZER!!!

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